sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Caldeirão de Aço - Semana 41 - Virada na trama - publicado originalmente no Jornal A Tarde no dia 24.09.2020

Bahia e super-heróis têm tudo a ver. Basta ver o mascote do clube: o Super-Homem, ou Homem de Aço. Além de Tricolor de Aço, sou fã de filmes e seriados com essa temática. Não venho, porém, falar dessa ligação institucional e histórica, mas das semelhanças entre o momento atual da equipe e um ponto fundamental do roteiro de quase todo filme de tal gênero. Aquele em que os heróis buscam um refúgio e tentam se reorganizar, depois de derrota clamorosa em uma das batalhas. Enquanto não voltam a enfrentar os vilões, tentam definir novas estratégias, arrumar reforços e recuperar as próprias forças, fortalecendo ou resgatando os próprios poderes.

Um dos exemplos para quem acompanha o Universo Marvel nos cinemas é a reunião dos heróis, depois de um grande revés, na fazenda da família do Gavião Arqueiro, no Vingadores – Era de Ultron - segundo filme da franquia. A analogia pode ser feita com esse intervalo de dez dias sem jogos da equipe, que segue se preparando no CT Evaristo de Macedo. É bem verdade que, nos filmes, essa pausa geralmente acontece depois da maior derrota dos protagonistas. No caso do Bahia, o 3 a 2 sofrido para o Corinthians está longe de representar esse momento, pelo placar,e, muito menos, pelo desempenho.

O retorno, contra o Athlético Paranaense, no sábado, entretanto, chega justamente no pior momento do clube na competição e no ano, já que, nesse meio tempo, o clube entrou na zona de rebaixamento. Esse momento dramático caberia perfeitamente em qualquer narrativa amparada na chamada jornada do herói, que não se restringe aos filmes de super-heróis. Aquele ponto de virada na trama.   

Mano Menezes está tendo um tempo inédito para ele, desde que chegou, e para o clube, desde que o futebol voltou com intervalos mínimos entre uma partida e outra. Ele assume o papel do mentor que busca despertar em cada integrante do elenco do Bahia os seus antigos poderes que andam esquecidos. Além de definir as melhores estratégias para superar os adversários.    

Ainda com relação ao momento do reagrupamento nos filmes de heróis, é nessa hora que eles buscam identificar outros potenciais aliados que ainda não aceitaram o chamado ao heroísmo para abraçarem a causa. No futebol, é a velha hora de contratar. Se a diretoria - confesso que eu também - achou que o Bahia poderia chegar ao final do Brasileiro sem contratar mais, após fechar o grupo para a disputa das primeiras competições do ano, já parece um consenso de que hoje é algo inevitável. Claro que a minha avaliação havia sido feita antes das quedas de rendimento individuais e coletivas e de algumas baixas, que precisam ser supridas.

Até o fechamento desse texto, o Bahia ainda não havia anunciado oficialmente nenhuma contratação. A especulação mais forte parece ser sobre a chegada do zagueiro Anderson Martins, que reforçaria a defesa mais vazada do Brasileiro. Entre outras especulações não tão concretas, confesso que o meu lado jogador de Master Liga se empolgou mais com a possível chegada do também zagueiro Ezequiel Garay, ex-Valência e seleção argentina.

É também a hora do retorno de alguns que haviam deixado a equipe, como é o caso de Eric Ramires. Que o tempo na Europa faça com que ele recupere os poderes demonstrados na temporada de 2019. Que Mano Menezes também consiga resgatar as qualidades esquecidas de tantos outros integrantes do grupo e que eles possam salvar o mundo, ou, mais especificamente, a temporada tricolor.

publicado originalmente no Jornal A Tarde no dia 24.09.2020

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Caldeirão de Aço - Semana 39 - Mudança de nível - publicado originalmente no Jornal A Tarde no dia 10.09.2020

A contratação de Mano Menezes tem sido encarada como mais uma comprovação da subida de patamar da instituição, nessa escalada em torno da retomada de toda a grandeza histórica. Ainda considero a chegada de Rodriguinho mais simbólica, pois Mano está parado desde o final de 2019, em que não teve boa temporada, enquanto o camisa 10 é um jogador que imagino que 19 das 20 torcidas da Série A gostariam de contar, provavelmente como titular. A única exceção seria o Flamengo, que já o teve como sonho de consumo recentemente. Mas é inegável que o comandante reforça toda a ideia de mudança de nível.

A insatisfação com resultados e desempenho em 2020 fez brotar afirmações repletas de hipérboles. Concordo com carências apontadas no elenco, mas não, com a inexistência de qualidade. É também inegável que a formação do plantel tenha mostrado que o respeito do Bahia no mercado está cada vez mais consolidado. Além de Rodriguinho, o clube conseguiu vencer disputa acirrada por Rossi, que fez ótimo Brasileiro pelo Vasco, tirou Daniel do Flu, também depois de um 2019 destacado, além de ter apostado em Clayson, que, apesar de vir de um 2019 apagado, e ainda estar decepcionando por aqui, já foi importante até em conquista de Brasileiro.

Que a chegada de Mano resgate aquela expectativa do início do ano e que ele possa contribuir com a mentalidade vencedora. Antes dele, Falcão havia sido o ex-treinador de Seleção principal com passagem mais recente pelo Bahia. E o hiato entre a passagem de Mano pelo selecionado e a chegada ao Esquadrão é bem menor. Afinal, ele deixou a CBF menos de oito anos atrás, em 2012, mesmo ano em que Falcão comandou o Tricolor, 21 anos depois da saída da Seleção, em 1991.

Mano trabalhará no CT que recebe o nome de outro treinador com passagem pela Seleção, Evaristo de Macedo, comandante campeão brasileiro. Os irmãos Zezé e Aimoré Moreira foram outros dois ex-técnicos da Seleção que treinaram o Bahia.

Depois de passagem longa e vencedora no Cruzeiro, que se encerrou após desgaste e queda de desempenho, e um trabalho sem muito brilho no Palmeiras, Mano busca voltar a se destacar. Claro que a prioridade segue sendo fazer uma ótima campanha no Brasileiro, seguindo o processo de evolução ano a ano, no entanto, a experiência bem sucedida de Mano Menezes em competições eliminatórias oferecerá certamente um acréscimo na expectativa com relação à Sul-americana. Mano tem nesse tipo de disputa as maiores conquistas do currículo. Foram três títulos da Copa do Brasil. Com o Corinthians, em 2009, e o Cruzeiro, duas vezes, em 2017 e 2018.

Mano teve o primeiro momento de projeção nacional no Grêmio, justamente o adversário da noite de hoje, em Pituaço. Cláudio Prates merece os parabéns pela forma como fez com que a equipe jogasse contra o Inter e tentará ser ainda melhor sucedido contra outros gaúchos. As mudanças promovidas parecem ter causado efeito positivo. A principal alteração, e mais visível, entretanto, foi na postura. Seguirei com a dúvida se a escalação foi determinante para a melhora de desempenho.

De qualquer forma, era preciso mudar. Embora não goste da ideia de Rossi fora do time, entendo que a mudança de esquema foi positiva nesse jogo específico. Em casa, como hoje, ainda é preciso ver se tal formação é a mais apropriada. Por hora, pelo momento dos jogadores, tenho a impressão de que o prejuízo com a ausência de um centroavante poderia ser menor do que a falta que Rossi faria. Mano tem histórico de preterir centroavantes mais fixos em benefício da mobilidade ofensiva. 

publicado originalmente no Jornal A Tarde no dia 10.09.2020 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Caldeirão de Aço - Semana 38 - Expectativa x realidade - publicado originalmente no Jornal A Tarde no dia 03.09.2020

Assistir a qualquer jogo do Bahia é uma das atividades que mais me dá prazer, seja qual for a situação, mas ontem, logo no início, a sensação foi de pânico. De primeira, mais um gol foi entregue de bandeja para um adversário em 2020, mostrando que a noite não prometia coisa boa. Com uns 20 minutos, quando o placar já apontava 2 a 0 e a equipe seguia apática e assistindo aos cariocas jogarem como queriam, a preocupação não era nem mais com os três pontos, mas aparecia o receio em ver uma goleada sem precedentes em minha memória. Causava pavor a ideia de ter que assistir ao restante da partida.

Uma situação de exceção, afinal foram raras as vezes que me faltaram forças para seguir assistindo e acreditando. Fico imaginando que o sentimento dos flamenguistas e de quem gosta de jogos com muitos gols, foi totalmente oposto, afinal foram oito gols, com direito a alguns golaços. Eu mesmo já saí da antiga Fonte Nova com sentimentos conflitantes depois de um 7 a 4 a favor do Santos, de Diego e Robinho. Chateado, logicamente, com a derrota, mas com a satisfação de ter visto uma grande partida e de ter visto uma equipe do Esquadrão, muito inferior tecnicamente àquele Santos, ter uma postura totalmente diferente da que vi ontem.

No final, a postura da equipe e os erros sucessivos conseguiram incomodar mais do que o placar de 5 a 3. Sim, eu tive forças para seguir assistindo. E confesso que cheguei a acreditar em uma recuperação histórica ao final do primeiro tempo, quando o placar estava desfavorável em 3 a 2. No entanto, até eu, que sou chato com a ideia de que, em uma virada, é mais importante enaltecer os méritos de reverter uma situação ruim, do que as falhas anteriores, estava criando um compromisso comigo mesmo, de não deixar de criticar, nesse espaço, a péssima atuação defensiva da equipe até aquele momento, caso o placar fosse revertido na segunda etapa. No entanto, os outros dois gols do Flamengo trouxeram à tona novamente a sensação de pânico, só encerrada depois do golaço de Daniel e do apito final.

Já existia a expectativa para a saída de Roger Machado logo ao final do jogo e se tornou realidade com o anúncio oficial ainda na noite de ontem. No final do ano, já existia uma parte da torcida que era contrária à permanência do treinador em decorrência da queda de rendimento da equipe no segundo turno do Brasileiro passado, depois de uma ótima metade de competição. Durante a atual temporada, a eliminação na Copa do Brasil e a derrota no único Ba-Vi sob o comando do ex-lateral-esquerdo fizeram aumentar o número de insatisfeitos.

As boas apresentações a partir de então até a paralisação do futebol brasileiro deram uma acalmada nos ânimos, mas a queda de rendimento depois do retorno das atividades criou um clima ruim de insatisfação constante de boa parte da torcida.

Com a saída do principal alvo das críticas, proponho um tipo de reflexão. No início do ano, durante a construção do elenco para a temporada, qual era a sua expectativa para o ano de 2020? Era positiva? Negativa? De modo geral, imagino que a empolgação estava lá em cima. O Bahia passou a ser destacado por vários representantes da imprensa esportiva nacional, sem qualquer relação com o esporte baiano, como uma das equipes mais promissoras.

Como aquele clima foi dando espaço ao atual, aos poucos, durante o ano? Será possível que aquela expectativa do início de 2020 ainda possa se aproximar da realidade? Torço por isso.

publicado originalmente no Jornal A Tarde no dia 03.09.2020