domingo, 20 de abril de 2008

Caldeirão ou parque de diversões


Leandro Silva

Considerado um alçapão, o Barradão, palco do Ba-Vi de hoje, já foi muito mais temido não só pelo Bahia, mas por todos adversários do Vitória, incluindo os grandes do sul e do sudeste do País. Clássico no Barradão era sinônimo de pesadelo para a torcida tricolor, já que o Bahia passou oito anos sem vencer no caldeirão rubro-negro. Mas, hoje, o tabu mudou de lado e o Bahia já sustenta cinco clássicos de invencibilidade no estádio, quatro pelo Campeonato Baiano.

Desde maio de 2006, o tricolor não sai do Manoel Barradas derrotado. Outrora, um caldeirão fervente que gerava um clima assustador para o Bahia, será que o Barradão está se tornando um parque de diversões tricolor? Ou um ‘recreio dos tricolores’ como o diretor de futebol do Bahia Ruy Acciolly se referiu ao estádio em entrevistas depois da vitória no primeiro Ba-Vi do ano?

Os torcedores rubro-negros tentam explicar essa queda de rendimento nos clássicos em casa. “São coisas do futebol. Particularmente achei o Vitória favorito em todos os cinco últimos Ba-Vis, tanto é que em todos esses torneios terminamos na frente do Bahia”, diz Alexandro Ribeiro, um dos autores do livro ´Barradão - alegria, emoção e Vitória´, que conta a história do estádio do Leão.

Também autor do livro, Luciano Santos também encontra dificuldades para explicar a mudança. “Rapaz, é difícil explicar isso. A explicação talvez esteja mais do lado do Bahia do que do Vitória. Talvez, a gente tenha ficado um bom tempo distanciado do Bahia em termos de elenco e agora esteja mais equilibrado”.

Diretor de futebol do Bahia, Ruy Acciolly pensa da mesma forma. “O que mudou foi que o Bahia fez times melhores, mais fortes e os resultados apareceram”, opina.

Por mais que se tente diminuir a força dos tabus, é inegável a sua interferência nos resultados no futebol. A vontade de quebrar uma escrita desfavorável é diretamente proporcional ao nervosismo e à falta de confiança que atingem o lado menos favorável de uma escrita, o do faminto por uma vitória.

Queda– A queda de rendimento do Leão dentro de casa não é um fato restrito aos clássicos. Fora o retrospecto recente do Vitória contra o Bahia no Barradão, o desempenho do Leão contra outros adversários no estádio também não inspira mais confiança.

A prova disso é que o rubro-negro foi o pior dentro de casa entre os finalistas do Campeonato Baiano, na primeira fase. Se antes Vasco, Palmeiras, Cruzeiro, Internacional passavam por dificuldades no alçapão rubro-negro, hoje, equipes menores como o Poções, que era lanterna, conseguem vencer.

Além do Feirense que, mesmo eliminado, conseguiu fazer quatro gols no Vitória dentro do seu estádio e por pouco não venceu.

Antigamente comparado a outros alçapões do futebol brasileiro como a Vila Belmiro, ou a Arena da Baixada, estádios com dimensões menores em que a pressão da torcida é muito grande e os times da casa não costumam perder pontos, o Barradão hoje pode até ser um local prazeroso para visitar.

“O estádio ainda é um fator extremamente positivo para os nossos jogadores, Acredito que de 95 pra cá, o Vitória sempre teve bons elencos. Antes, era uma casadinha: elencos bons e o Barradão dando apoio. Acho que hoje os insucessos estão mais ligados à limitação do time”, rebate Luciano Santos.

Ele não concorda com uma perda total da força do estádio, mas reconhece que alguns fatores limitaram o poder de decisão do Barradão.

“No início, a pressão e a mística eram mais valorizadas. Hoje, com o estatuto do torcedor, tudo tem que ser muito neutro”, explica Luciano Santos. Segundo ele, não havia nada de absurdo nas práticas do Vitória antes do estatuto do torcedor, mas depois qualquer tipo de ´malandragem´ passou a ser coibida.

“Nunca aconteceu nada de extraordinário no Barradão. Tô falando por mim. Acho um bom estádio, bom de se jogar. Somos bem tratados lá. Não tenho queixa nenhuma”, diz Ruy Acciolly.

Alçapão– Apesar das três vitórias do Bahia e dois empates nos últimos cinco clássicos no Barradão, a vantagem do Leão ainda é enorme. Em 34 jogos, são 21 vitórias do Leão, seis triunfos tricolores e mais sete empates. Metade das vitórias do Bahia aconteceu nos últimos dois anos.

Mas quais características do estádio mais contribuíram para essa larga vantagem rubro-negra? “Acho que isso está menos ligado às características físicas do estádio e mais aos fatores psicológicos. A fama do Barradão fez com que essa idéia do alçapão fosse criada. E acho que foi o Bahia mesmo que criou essa mística com o objetivo de inviabilizar os jogos lá, alegando que os fatores extra-campo atrapalhavam”, diz Luciano Santos.

“Se o Bahia tivesse se conformado em atuar lá com naturalidade, não teria criado essa pressão e provavelmente, a vantagem poderia ser menor”, acrescenta.

“Esse temor nunca existiu, não. Fomos campeões (do Baiano) em 98 lá, também fomos bi-campeões do Nordeste em 2002”, finaliza Ruy Acciolly.

Matéria publicada originalmente no Jornal A Tarde do dia 20/04/2008

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